A Doença da Alma dos Jovens na Atualidade

Selma Pup Genzani

The Disease of the Soul of Young People Nowadays

 

 

RESUMO

O resgate dos valores éticos e de fé no bem, na realidade, são fundamentais na educação das crianças e adolescentes. Só pode haver equilíbrio individual e na sociedade, em decorrência, se tais valores essenciais forem seguidos. A energética de um ambiente onde se trabalha com a consciência dos erros e ao mesmo tempo se incentiva a ação boa, bela e verdadeira, faz toda a diferença na vida dos jovens.

Palavras-Chave: Psicossociopatologia, Psicanálise Integral, Conscientização, Educação, Terapia, Jovens.

ABSTRACT

The recovery of ethical values and faith in goodness, in reality, are fundamental in the education of children and adolescents. There can only be balance individually and in society, as a result, if such essential values are followed. An energetic environment where we work with the consciousness of mistakes and at the same time encourage good, beautiful and true action, makes all the difference in the lives of young people.

Keywords: Psychosociopathology, Integral Psychoanalysis, Consciousness, Education, Therapy, Young People.

 

Texto

Um artigo recente, intitulado “La santé mentale des adolescents se dégrade, particulièrement chez les lycéens” (“A saúde mental dos adolescentes se degrada, especialmente nos do ensino médio”), mostra um estudo feito na França em que os jovens têm se sentido mais solitários, irritáveis, com dificuldades para dormir, nervosos, com dores nas costas etc.
A pesquisa foi conduzida pela “École des hautes études en santé publique” e pelo “Observatoire français des drogues et des tendances addictives”, em parceria com a Educação Nacional, que recolheu dados de 9.337 alunos de nível secundário (o equivalente no Brasil ao Fundamental II + Ensino Médio) em 2022.

Cerca de 14 a 15% destes jovens apresentaram importante risco de depressão, com sintomas como: falta de energia, falta de motivação, dificuldade em refletir. Entre os do ensino médio, 24% declararam ter tido pensamentos suicidas nos últimos 12 meses (especialmente as garotas) e um entre cada 10 declarou mesmo ter realizado uma tentativa de suicídio ao longo de sua vida.

Sabe-se que tal situação não é exclusiva da França, naturalmente. Especialistas de vários países têm trazido à tona o drama do suicídio entre jovens e mesmo crianças nos últimos tempos. “Nos EUA, os níveis de depressão entre adolescentes cresceram 50% de 2010 para cá. O de suicídios entre 10 (!) e 14 (!) anos subiu 48%, sendo que entre as meninas aumentou 131%”, cita Antonio Prata em artigo intitulado “O óbvio ululante”, publicado no jornal Folha de São Paulo em junho de 2024.

E o que tem acontecido nestes tempos? Crianças e adolescentes pregados às telas de laptops e celulares, navegando especialmente nas redes sociais de uma forma cada vez mais intensa e abusiva, com exigências estéticas, materiais e de comportamento, como nunca visto.
Desaprendemos a viver? Como menciona Antonio Prata no mesmo artigo: “A necessidade de que especialistas repitam o que as nossas bisavós já sabiam, parece, não é culpa deles, mas do pífio estágio atual da humanidade. Crianças não brincam, adultos não interagem, a tristeza deve ser medicada”.

Jovens mais deprimidos, isolados, ansiosos, que se autoflagelam, com mais distúrbios alimentares, retraídos, sem muita perspectiva na vida, nos estudos, no trabalho, nas relações afetivas… temos que analisar melhor como chegamos a isso…. com tanta tecnologia à disposição, que, em tese, deveria ser a favor das pessoas, está sendo usada de maneira errada, em desfavor do que é humano, saudável, alegre e necessário.

Também observa-se muita deseducação nestes tempos atuais, com a ideia de que não deveria haver regras a serem seguidas, que possam provocar frustrações, pois isso poderia constranger a criança ou o jovem. Assim, muitos são criados sem limites, no esquema “tudo pode”, o que os deixa desorientados e arrogantes, e tendem a ter muita dificuldade na fase adulta, pois a vida em sociedade tem parâmetros bem determinados. Na realidade, quem ama dá limites, ensina, corrige, sempre com amor e firmeza. Isto cria cidadãos preparados para a vida real.

Na época de Freud, o pai da psicanálise, o conceito de repressão era exclusivo da sociedade, de sua cultura e da educação recebida em casa. Keppe mostrou como a censura é algo que existe fortemente no interior de cada ser humano, que rejeita perceber o mal que existe em seu interior, a nível de sentimentos, pensamentos e mesmo ações práticas. Mas, há uma tendência atual de não se poder traumatizar os jovens, como cita o escritor Leandro Karnal em uma de suas palestras, dando o exemplo que presenciou numa competição escolar onde todos ganhavam uma medalha igual, por participação, mesmo aquele que nada se esforçou, para não ser “traumatizado” no evento. Este é um processo de censura à consciência, o que é muito prejudicial, sempre.

Censurar a conduta errada, antiética, mentirosa etc., é necessário, mas, censurar a consciência do erro é sempre algo negativo. Keppe ensina que a consciência do mal é o maior bem que existe, pois o mal é o que impede o ser humano de estar no bem, viver o bem, que é a única forma de haver bem-estar e equilíbrio. Por isso, a conduta boa precisa sempre ser valorizada, incentivada e a conduta doente (patológica) ser sempre conscientizada e contida.

Desde que houve a quebra energética na humanidade, quando o ser humano caiu na tentação luciferina de passar a conhecer o mal – além de “somente” o bem – como se fosse algo mais abrangente, passamos a amargar uma existência diferente de nossa essência original. O mal, sendo a negação do bem, não é algo “a mais”, mas sempre a menos, pois destrói, corrompe, deturpa o bem que existe por si.

Se antes estávamos em conexão direta com Deus, vivendo uma existência em ressonância com a essência criada, portanto, boa, bela e verdadeira, passamos a ter o patológico já impregnado em nossa genética e que já se manifesta desde a mais tenra idade.

Como explica Keppe, nascemos seres com inveja, que é a base da patologia humana, é como o “pecado original”: todos a temos e fará parte da existência, de forma mais intensa quanto menos for percebida. Daí a importância de se trabalhar a conscientização da patologia desde cedo com as crianças, pois, assim, terão a chance de ter uma vida menos sofrida e mais próxima da realidade. Inveja vem da raiz latina invidere, não ver: na atitude invejosa não se vê o que existe por si (bem) e se ataca.

Em “A Origem das Enfermidades”, Keppe explana acerca do triângulo infernal da neurose, colocando a inveja e a censura na base e a projeção, consequência, no vértice superior. O movimento patológico tem a inveja no início e, uma vez não sendo reconhecida, caracteriza-se a censura (resistência, abafamento da percepção); em seguida, projeta-se o problema no exterior (em outra(s) pessoa(s), na sociedade, numa instituição, país etc.). Trata-se de um processo doentio, quase automático e muito prejudicial para todos os envolvidos.

O caminho para a sanidade passa necessariamente pela diminuição do grau de censura para se reconhecer a inveja (e tudo o que decorre dela) e consequentemente se fazer menos projeções, o que evitará muitos conflitos. Portanto, o grau de doença de uma pessoa se mede pelo grau de censura, ou seja, o quanto ela aceita reconhecer sua problemática ou não: quanto mais patológica, mais censurada uma pessoa é.

Além da censura individual de cada um, o ambiente em que se vive pode ou não reforçar esta tendência. Por exemplo, se a criança cresce em um lar onde há muita repressão aos erros cometidos, naturalmente a criança tenderá a mentir para escondê-los, o que vai recrudescendo a problemática. Se ao invés disso, o ambiente for mais saudável, a favor da verdade, do reconhecimento das falhas e suas consequências, da prática do perdão, a criação torna-se mais natural (menor grau de censura).

Então, voltando para o tema da doença da alma dos jovens, o processo de autoflagelação, depressão, suicídio mostra um grau de censura muito elevado: acostumado a não ter limites e recusar frustrações, terá um incômodo muito grande ao se deparar com suas dificuldades. Uma simples correção do professor em sala de aula e alguma caçoada de um colega pode levar o adolescente muito censurado a ir se cortar no banheiro da escola, preferindo a dor física à dor psíquica, daquilo que interpreta como forte humilhação.

Jovens que têm uma ideia muito alta de si próprios (censura elevada também, não aceitando ver suas falhas) sofrem para se adaptar nas primeiras experiências de trabalho, pois não recebem bem as correções cabíveis e necessárias, inclusive, neste processo de aprendizado. Ao terem seus erros apontados, chegam a não voltar no dia seguinte ou vão desenvolvendo processo depressivo exagerado. Sem contar ainda com os padrões estéticos e comportamentais estabelecidos pelas redes sociais, com tratamentos cruéis discriminatórios de cancelamento e cyberbullying aos críticos ou que não se enquadram na “massa”. Signo da censura em que vive nossa sociedade atual.

Vemos que a educação precisa ser conscientizadora, tratando dos problemas como tal, com limites, com a clara noção do certo e do errado; afinal educar é terapizar!

ESPIRITUALIDADE

Desde que nascemos – e porque não até antes, nos úteros maternos – sofremos a influência de seres espirituais, seja dos bons ou dos malignos (demônios). Por isso, é tão importante que as crianças sejam conscientizadas desta realidade desde cedo, para poderem ter defesas contra as influências negativas. Assim como na atitude boa e na verdade o ser humano está em ressonância com os seres bons, na mentira, na maldade, no ataque ao bem, na destrutividade, está conectado (telepaticamente) aos malignos. E o agir no mal sempre terá consequências desagradáveis, indesejadas. A criança precisa desta orientação para poder fazer suas escolhas de forma mais realista na vida. E para as crianças, tratar de espiritualidade é muito mais natural do que para os mais velhos; elas, com frequência, se referem a visões, percepções e, se não forem censuradas, continuarão desta forma.

Em “Socioterapia e Exorcismo”, Keppe traz:

É totalmente impossível entender o ser humano e a sociedade, se não houver conscientização dos demônios que os acompanham, pois eles constituem muito mais de 50% de todas as ações que transcorrem no Planeta, o que mostra que a maior parte dos acontecimentos procede deles. (KEPPE, 2018, p. 54)

E continua falando do processo de influências demoníacas:

… ele é demorado e fortemente ligado ao sistema de educação que recebeu, das ideias e sentimentos vigorantes, em seu passado de existência. É por esse motivo que parentes desequilibrados, mestres e amigos desajuizados, exercem enorme influência… Os romances e películas que abordam esses temas ajudam incrivelmente a conscientizar, e até revelar essas lembranças desagradáveis – daí a atração que exercem nos jovens, que são mais sensíveis aos acontecimentos.
(KEPPE, 2018, p. 54-55)

Neste sentido, o resgate dos valores éticos e de fé no bem, na realidade, são fundamentais; eles não são relativos, são o que são. E só pode haver equilíbrio individual e na sociedade, em decorrência, se tais valores essenciais forem seguidos. A energética de um ambiente onde se trabalha com a consciência dos erros e, ao mesmo tempo, se incentiva a ação boa, bela e verdadeira, faz toda a diferença na vida dos jovens.

Posso citar o exemplo de um grupo de cerca de 10 jovens adultos, hoje com idades entre 20 e 35 anos, que cresceram juntos e conviveram entre si em Residências Trilógicas* por vários anos; nestas os valores ético-afetivos sempre foram muito valorizados, proporcionando também programas terapêuticos de conscientização de seus erros (agressões, egoísmo, falta de colaboração, desrespeito etc.). Hoje todos eles têm uma existência equilibrada, estudaram, se formaram e têm vida séria de dedicação ao trabalho; em tempos onde a porcentagem de jovens “nem-nem”, que nem estudam nem trabalham, cresce vertiginosamente no mundo.

Dentro de minhas atividades como psicanalista integral, participo frequentemente de oficinas terapêuticas, palestras e rodas de conversa com adultos, que muitas vezes trazem seus filhos crianças ou pré-adolescentes para participar da atividade. Chama a atenção como estes gostam de contribuir e dão exemplos totalmente pertinentes ao tema tratado. Interessante como eles gostam e fazem bom uso destes momentos, para expressar suas vivências e colaborar com a atividade. Vale ressaltar que quando se trata de pais menos censurados, que já trabalham com suas psicopatologias à luz da Trilogia Analítica, os jovens são mais abertos também e apreciam muito um ambiente mais verdadeiro.

A metodologia de conscientização da Psicanálise Integral e suas aplicações práticas tem efeito fulminante na recuperação do equilíbrio espiritual, psicofísico e social do ser humano.

“A conscientização importa em uma explosão de luz tão incrível, que o ser humano estremece diante dela, tomando, geralmente, uma, de duas atitudes: ou negando-a, omitindo-a e desvirtuando-a, ou aceitando-a. Neste último caso, o indivíduo “cresce” incrivelmente, porque estabelece definitivamente contato com o que é eterno”. (KEPPE, 2019, p. 49)

 

 

Autor

Selma Pup Genzani

Psicanalista da SITA (Sociedade Internacional de Trilogia Analítica) desde 1993, em Paris. Treinada em Psicanálise Integral na Escola Norberto Keppe de Nova Iorque, Paris e Brasil. Palestrante internacional no campo da saúde e relações humanas. Possui Graduação em Engenharia de Minas pela Universidade de São Paulo (1984).  Especialização lato sensu em Gestão de Conflitos (Psicossociopatologia) em 2013 pelo Instituto Keppe & Pacheco, em parceria com o INPG (Instituto Nacional de Pós-graduação). Teóloga pela FATRI (2023). Professora de Psicossociopatologia do curso de Pós-graduação lato sensu de Gestão de Conflitos da FATRI, onde integra também a equipe de coordenação.

Notas

*As Residências Trilógicas são uma alternativa econômica para se viver em um ambiente de cooperação e relacionamento humano, independente da sociedade tradicional; visam estimular o interesse pela cultura e ciência; auxiliar os que sofrem de solidão, insegurança, falta de integração social, dificuldades econômicas de qualquer ordem; encorajar altruísmo, honestidade e crescimento pessoal; enfim, criar um ambiente favorável e eficaz ao trabalho com os problemas e dificuldades que todos os seres humanos têm com sua própria vida, com os outros e com a sociedade em geral.

Bibliografia

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BILLAULT, Jérémy. La santé mentale des adolescents se dégrade, particulièrement chez les lycéens. RTL, Paris, 09 de abr. de 2024.
Disponível em : <https://www.rtl.fr/actu/sante/la-sante-mentale-desadolescents-se-degrade-particulierement-chez-les-lyceens7900372341>. Acesso em: 10 de jul. de 2024.
KEPPE, Norberto R. A Glorificação. 3ª ed. São Paulo: Proton Editora, 2019.
KEPPE, Norberto R. A Origem das Enfermidades. 2ª ed. São Paulo: Proton Editora, 2001.
KEPPE, Norberto R. Socioterapia e Exorcismo. 1ª ed. São Paulo: Proton Editora, 2018.
PRATA, Antonio: O óbvio ululante. Folha de São Paulo, São Paulo, junho 2024.

 

Vol. 34 n. 43 (2024)

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