Malaki, como tantas outras crianças hoje em dia, tem medo da guerra

Kati,  Finlândia*

Algum tempo atrás, peguei o livro infantil de Sari Koivukangas Malaki tem Medo de Guerra (OK-kirja 2016, Proton Editora, 2018) no ponto de compartilhamento de livros de uma biblioteca. A princípio, não achei que o livro se tornaria tão útil.

Ele conta a história do menino Malaki, que é representado como um macaco. Malaki é uma criança como qualquer outra. Às vezes, ele maltrata seu irmãozinho. Às vezes, ele tem inveja, pois tem impressão que a mamãe tem mais tempo para o irmãozinho do que para ele. Por isso, às vezes ele faz birra e nem quer comer com a família.

Malaki assiste na televisão sobre uma guerra que estão fazendo em Ultala. Essa guerra desencadeia medo, e Malaki fica angustiado. Ele tem medo de que a guerra chegue perto da casa dele.

À noite, antes de dormir, Malaki e mamãe conversam sobre a guerra e o medo que ele sente.  Sua mãe lhe diz que podemos colaborar com a paz, primeiramente mudando o nosso próprio comportamento. “A guerra só existe por causa da inveja“, diz-lhe a mãe sabiamente.

Malaki pode promover a paz se deixar de judiar seu irmãozinho. Malaki precisa reconhecer sua inveja, e perceber como esta o leva a provocar o irmãozinho e a uma conduta ruim.
O pai de Malaki sugere que se pode agir na prática pela paz, por exemplo, distribuindo bottonsSTOP a Guerra” para os vizinhos.

Gostei da ideia do livro, que para lidarmos com o medo é necessário considerar sentimento, pensamento e ação. O medo se manifesta nessas três áreas, e não podemos nos libertar dele se nos concentrarmos apenas em uma parte dele.

O final do livro reproduz, para o leitor adulto, uma entrevista com a presidente da Associação STOP a Destruição do Mundo,  a Psicanalista Cláudia B. S. Pacheco, sobre a guerra, e trechos das obras do psicanalista Dr. Norberto Keppe ligados ao tema, que ajudam a lidar com o medo.

O ataque da Rússia à Ucrânia fez com que o medo da guerra se esgueirasse na mente da minha filha de sete anos, apesar de, por uma escolha consciente da família, termos tentado mantê-la longe de notícias sobre a situação na Ucrânia. Claro que isso não é totalmente possível. Os meninos brincam de guerra na escola, amigos da família relatam, exaltados, como que babando, o que fazem para estocar comprimidos de iodo, galões de água, alimentos e papel higiênico.

Eu não gostaria que a minha filha visse nenhuma matéria filmada sobre a guerra. Lemos com ela sobre a guerra em um jornal para crianças (embora eu ainda censurasse algumas partes). No entanto, o medo já tinha sido despertado nela. Ela fica identificando abrigos de proteção civil como se estivesse fazendo avistamentos de pássaros, e quer ouvir histórias de guerra da época dos seus avôs. Recentemente, me perguntou se haverá guerra na Finlândia.

Na introdução, Koivukangas diz que percebe a necessidade de um livro infantil que trate do medo de guerra, pois “as crianças têm medo de guerra, e ninguém conversa com elas sobre o assunto. Os adultos estão sempre com pressa ou alienados de outro modo, ou nem compreendem o que as crianças sentem: quais medos são reais e quais são paranoia que aprendem dos adultos“.

Conversar nem sempre é fácil se as coisas também não estão claras na mente do adulto. Concordo com Koivukangas, que não deveríamos deixar as crianças sozinhas com seus medos. Tenho sempre achado muito útil, na hora de conversar de assuntos complicados, ler com a criança um livro infantil que trate do assunto. É uma maneira excelente de começar uma conversa.

Malaki Tem Medo de Guerra é um livro muito bom para iniciar uma conversa. A história é curta e simples, as imagens claras e coloridas. O livro oferece sugestões práticas de ação, com as quais conseguimos dar um jeito na situação. O livro é adequado inclusive para uma criança pequena.

*Artigo originalmente publicado na Finlândia, no dia 10/03/2022. Disponível em: https://lastenkirjavuosi.blogspot.com/2022/03/malaki-pelkaa-sotaa-ja-niin-moni.html Acesso em: 17/07/2022

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