O diálogo interreligioso de Ramon Llull

Maria Regina T. Weckwerth

Ramon Llull´s Interreligious Dialogue

 

RESUMO

Judeus, cristãos e muçulmanos. Três culturas regidas por um só Deus e fundamentadas nos mesmos princípios divinos: Bondade, Grandeza, Eternidade, Poder, Sabedoria, Virtude, Verdade e Glória. Entretanto, três culturas que viveram, e vivem, sob o manto da intolerância, sem que nenhuma saiba realmente qual a melhor religião. Raimundo Lúlio, objeto deste artigo, surpreende o leitor no prólogo de sua obra, O livro do Gentil e dos três Sábios, ao dizer dos bens que adviriam se todos tivessem uma só fé e uma só Lei. Caminho seguido por toda sua existência buscando estabelecer o diálogo interreligioso.

Palavras-Chaves: Diálogo interreligioso, virtudes, Lei, Fé, Ars.

ABSTRACT

Jews, Christians and Muslims. Three cultures guided by a single God and founded on the same divine principles: Goodness, Greatness, Eternity, Power, Wisdom, Virtue, Truth and Glory. However, the three of them have always lived under the cloak of intolerance, not knowing which the best religion is. Raimundo Lúlio, the subject matter of the current scientific article, surprises the reader in the prologue of his book “The Book of the Gentile and the three Wise Men”, by mentioning the benefits they would have gained had they all had a single Faith and one and the same Law. That is the path he followed all his life in this search for a dialogue among religions.

Palavras Chave: Dialogue among religions, Virtue, Law, Faith, Ars.

 

Texto

PREÂMBULO

Vivemos na atualidade o que se poderia chamar o mundo da informação. Através das mídias disponíveis temos acesso aos acontecimentos do mundo inteiro; por meio da Internet assistimos, lemos e ouvimos o que acontece em qualquer lugar do planeta em tempo real; as notícias invadem nossa privacidade através das redes sociais em nossos celulares e computadores de formas cada vez mais ousadas e aperfeiçoadas, caracterizadas nas formas o mais convincentes quanto possam ser. Naturalmente, entre notícias, informes e novidades há que serem ponderadas as razões, fontes e circunstâncias nas quais se embasam tais informações. Quantas distorções da comunicação se alastram com tom de verdade, ou quantas “verdades” podem ser proferidas irresponsavelmente? Em que margens situam-se nossa fé [crer] e nossa razão?

Conforme descrito por Jaulent na introdução da obra de Raimundo Lúlio, fundamentamos nossa fé no conteúdo que nos é transmitido, mas nossa confiança nunca deveria ser cega. Portanto, há uma simbiose entre razão e fé, “o ato de fé não pode estar dissociado da razão a ponto desta abrir mão de sua estrutura fundamental”. Doutrina que se aplica do mesmo modo, às crenças religiosas, nas quais “há um conteúdo revelado, que se recebe na fé, porque se acredita que Deus não pode nos enganar nem se enganar, e há um trabalho da razão – a teologia” (Lulio-2001-pag. 8). Para
Raimundo Lúlio, o homem foi criado principalmente para entender e não para crer. O exercício da razão, implícito no ato de fé, é ação prioritária.

 

CONTEXTO HISTÓRICO

O estudo de Raimundo Lúlio, filósofo do século XIII, destaca-se por sua inserção num contexto histórico no qual, a par da reconquista do território peninsular, sob o domínio islâmico, desenvolve sua obra, cuja ideia central funda-se num permanente diálogo entre as religiões para que o mundo viva em paz. Considerando a história da Península Ibérica, palco exemplar de representação do conflito inter-religioso desde o século IV, nos anos 320, nas origens hispânicas quando surgem as primeiras manifestações Adversus Iudaeos. Concílios e Tratados inúmeros são mobilizados envolvendo a polêmica antijudaica e a tensa convivência entre cristãos e hebreus. Cenário que assumirá cores intensas com a invasão muçulmana em 711, complicando ainda mais essa convivência. Com a reconquista, Toledo é conquistado por Afonso VI (1109), abrindo enorme progressão histórica na Hispânia Medieval, que por apelo “científico”, estabelece um convívio harmônico entre os três credos, mesmo coexistindo num território permanentemente em guerras, invasões, fome e peste, conforme Pardo (2004).

A conhecida Escola de Tradutores de Toledo viveu seu ápice no reinado de Afonso X, o sábio (1221-1284), cuja política de tolerância estabeleceu normas de convivência entre as três culturas, não esquecendo que se estabeleceram segundo princípios rígidos e no qual o fator “igualdade” não se faz absolutamente presente. O “outro”, ainda que tolerado, não escapa à humilhação e baixo uma série de disposições legais que o relegam a condição de cidadão de segunda categoria. Em seus textos jurídicos, Las siete partidas, Afonso X faz lembrar o crime dos judeus:

“En otro tiempo los judíos solamente se llamaban Pueblo de Dios, y tenían grandes privilégios, los que perdieron después que le crucificaron, y desde entonces no pueden tener oficio ni dignidad con que pudiesen apremiar a los cristianos.” ²

Segundo Luiz Araújo³, na corte Catalão-Aragonesa, as coisas não eram muito diferentes. Ramon de Peñafort, defensor da conversão forçada dos infiéis, não descarta o uso da força bruta se necessário, e o constrangimento do afastamento de cargos públicos e do direito de viver na cidade, confinando-os em bairros distantes. O rei de Aragão, Jaime I, o conquistador (1213-1276), adota a política de conversão obrigatória dos infiéis, submetendo-os pela força às pregações dos frades dominicanos.

Em 1229, Jaime I reconquista a pequena ilha de Maiorca, que se encontrava sob o poder muçulmano e três anos após a reconquista nasce Raimundo Lúlio, (1232), cujo relacionamento com as culturas judaica e muçulmana deram-lhe os ingredientes fundamentais para o desenvolvimento de sua obra.

Raimundo Lúlio, pertencente à nobreza, foi mordomo real e tutor do Infante Don Jaime II de Maiorca, filho de Jaime I. Casado, pai de dois filhos desfruta mundanamente da vida na corte até passar a ter visões sobrenaturais, que o levam a aspirar um estado mais elevado. Torna-se amigo de Raimundo de Peñafort, mas, se encanta com o espírito de São Francisco que inspirou o século XIII com o amor a Deus e a toda a obra criada.

Lúlio aspira converter infiéis com as armas da verdade e da fé em harmonia. Aprende o árabe e se expressa nela falando e escrevendo. Empreende uma série de viagens, fazendo pregações em sua terra natal, ao Norte da África, na Síria e na Palestina. É mestre em Paris, percorre a Itália. Sua vida é ação e contemplação. Aprende sem cessar, escreve, predica e aborda com valentia os problemas da ciência e da alma. É o primeiro na história a compor tratados de Filosofia em língua vulgar. É criticado e denunciado pelo dominicano Nicolas Eymerich que condena suas obras por
proposições heréticas. É acusado de compor obra alquimista e tem suas obras apontadas no Índice, até que os reis de Espanha, Carlos V e Filipe II, recorrem aos Pontífices fazendo-os ver a pureza de sua obra; Pio IX o declara Beato e não lhe cabe a menor sombra de heresia. Raimundo Lúlio queria converter judeus e muçulmanos ao cristianismo e durante toda sua vida perseguirá seu sonho de redenção dos infiéis, quer muçulmanos ou judeus, através do diálogo. Cabe ressaltar este aspecto, aliás, fundamental, na diretiva metodológica luliana.

RAIMUNDO LÚLIO (RAMON LLULL)

Consumirá sua vida em busca da defesa de sua ideia unionista e apologética. Surpreende o leitor no prólogo de sua obra “O Livro do gentil e dos três sábios” ao descrevê-la nestas palavras, conforme Jaulent:

“Pensai, senhores, disse o sábio a seus companheiros, quantos são os danos que se originam pelo fato de os homens não seguirem uma só religião, e quantos são os bens que adviriam se todos tivessem uma só fé e uma só Lei” (Lulio-2001-pag. 13).

Defensor do diálogo fará uso de seu próprio método, bastante diferente de seus contemporâneos, cujo teor revela uma feição muito mais simpática e inspirada na experiência da própria vida e imersa no desejo de fazer triunfar a Verdade. Até então, o empenho missionário em direção da conversão ao cristianismo fundamentava-se em aspectos débeis na argumentação das outras religiões para condená-los; cada qual buscava nestas controvérsias provar a superioridade de sua fé, levando na maior parte das vezes ao confronto e até mesmo ao litígio. O século XIII é marcado por hostilidades abertas contra os judeus e os sarracenos. Em 1263 é travado o famoso Debate de Barcelona, no palácio real em presença do rei Jaime I, do dominicano Raimundo de Peñafort e
numerosos prelados, entre o rabino Mosé ben Nahman de Girona, conhecido como Bonastruc de Porta e o judeu convertido Pau Crestià, de Montpellier. A partir deste debate as discussões com o infiel terão importantes consequências que se desdobrarão do plano estritamente teológico, mas envolvendo também o campo político-social.

A conversão de Lúlio ocorreu neste período, passou nove anos estudando intensamente e já possuía uma perspectiva dos métodos empregados pelos dominicanos, além de ser profundamente avesso às argumentações baseadas em verdades de fé. Suas exposições e debates pautavam-se no que ele denominava razões necessárias, inspirando-se em Santo Anselmo, as quais jamais poderiam ser rebatidas por qualquer texto revelado. Para ele, os argumentos de autoridade variam conforme diversas opiniões, nas quais se multiplicam as palavras confundindo o entendimento.

Neste contexto cabe esclarecer a citada conversão de Llull, como se deu, se desenvolveu e gerou seu método, a Ars (Arte).

Em sua obra, ditada por ele aos monges cartuxos de Vauvert, no final de sua vida, em 1311, intitulada Vita Coaetania⁴ , tinha por objetivo transmitir sua obra às gerações futuras; base autobiográfica da qual se valem os historiadores da atualidade como fonte de estudos.

Em torno do ano de 1263, quando Lúlio ainda contava com aproximadamente 30 anos, vivia os últimos momentos de sua vida mundana e descomprometida compondo trovas e canções para uma namorada, de fato um amor adúltero, quando teve pela primeira vez a visão de Jesus com os braços em cruz, suspenso diante de si. Espanta-se e se refugia em seu leito. Entretanto a visão se repete quatro e cinco vezes, quando então assevera e entende que a visão lhe convidava a abandonar o mundo para dedicar-se a servir a Deus.

Entra em profundas reflexões, deliberando três coisas em seu pensamento: colocar sua vida para a honra e serviço de Jesus Cristo, fazer livros contra os erros dos infiéis e edificar monastérios nos quais homens sábios estudassem e aprendessem a língua árabe para predicar e manifestar a verdade. Espelha-se em São Francisco e passa a peregrinar em romaria e dedicar-se intensamente aos estudos, compra um escravo mouro para aprender o árabe, que após longos anos de convivência blasfema contra Jesus. Este fato desencadeia uma luta infeliz entre Lúlio e o escravo que acaba por ser encarcerado. Lúlio afasta-se para ponderar o que fazer com o dito escravo, entretanto ao retornar encontra o escravo, morto, pendurado pela corda com que estava preso.

Após estes acontecimentos, sobe até o alto da montanha Randa, não muito distante de sua casa, onde permanece por oito dias e é inspirado por visão divina, da ordem e da forma de escrever o livro contra os erros dos infiéis. Desce a montanha e dirige-se à abadia e compõe um livro muito belo ao qual chamou Ars Magna (Arte Maior – base de todo o sistema filosófico e teológico), e depois Arte Geral (subtítulo da obra Ars compendiosa inveniendi veritatem), escrita cerca de 1270, em Maiorca. Sobe novamente ao monte Randa e edifica um eremitério, atualmente Oratório de Cura, em mãos dos franciscanos. Este será o início de um longo caminho de estudos, escritos e viagens a ser percorrido por Lúlio, nos seus mais de oitenta anos vividos.

O método fundamentado em sua Ars⁵ será desenvolvido segundo um intrincado mecanismo combinatório, através de discos sobrepostos, que se movem um sobre os outros para organizar o conhecimento. Por 36 anos, trabalha no aperfeiçoamento desta Arte escrevendo diversas versões para adaptá-la aos diferentes níveis de compreensão do público ao qual se destinava. Um sistema de argumentação que se baseia nas relações necessárias entre os princípios que constituem a realidade, virtudes divinas e virtudes criadas – bondade, magnitude, eternidade, poder, sabedoria, vontade, virtude, verdade e glória –, e os vícios [pecados capitais], segundo combinações e intensidades diferentes para tudo o que existe, desde Deus a mais ínfima realidade. Relações que
nascem da conjugação entre sujeito e os predicados [verdadeiros] que lhe são inerentes, segundo um diálogo [argumentação] que respeita dez condições, também necessárias e nunca contrárias, o que implicaria o não-ser [falso]. O verbo convir é frequentemente utilizado em suas argumentações considerando que a ligação do homem com o sagrado, convém a Deus e aos homens.

Lúlio apresenta em seu método uma nova maneira de encarar a realidade, que por seu dinamismo íntimo e permanente realimentação, não é assimilada totalmente pelo homem que frequentemente a confunde com a ideia que se faz dela. A realidade está em constante expansão e mobilidade; é ativa, complexa e dinâmica enquanto o entendimento do ser humano necessita da imobilidade do objeto a ser compreendido. A ideia é extremamente limitada, no pensamento tudo se torna imóvel e eterno, e aqui Jaulent dá como exemplo a fotografia que congela um momento da realidade. Por sua diferente constituição – dinâmica a realidade e, estática a ideia – organizam dois universos separados que se unirão no breve instante em que o homem pensa. Nesse momento a realidade está de algum modo presente em nós e nós presentes nela.

Estamos presentes no mundo física e mentalmente, por mais que fujamos: “existe em nós um conhecimento habitual [inerente], sempre em ato, que torna patente [evidente] a realidade do mundo [universal] e ao mesmo tempo nos torna mental e habitualmente presentes nele” (Lulio – 2001 – pag. 19). É nesta abertura que se apoia a teoria do conhecimento de Lúlio, isto é, nossas ideias são verdadeiras quando se conformam e se ajustam à realidade. “Sem a luz [consciência] permanente do contato com a realidade patente [evidente], não poderíamos julgar sobre a verdade ou falsidade das ideias, pois é ela que permite o confronto entre a realidade presente e patente em nós e o que nós pensamos a respeito” (Lulio 2001 – pag. 19). Poder-se-ia dizer que em outra condição o julgamento resultaria delirante, idealizado ou em outros termos falso.

A Arte luliana tem como premissa, em sua teoria do conhecimento, a congruência que deve existir no ato de conhecer – a realidade do conhecedor e a realidade do conhecido. Para ele, a realidade da pessoa (um ser bom) define ou limita seu campo de conhecimento (pode amar o bem) ou só terá noção do mal quando odiar. A argumentação se dará em função daquilo que é conhecido pelo ser e não das ideias feitas pelo ser.

Para Lúlio o ser é dotado da capacidade ativa e produtiva. O ser constrói a realidade. Para tanto esclarece:

“o Ser de Deus é a fusão de todas as atividades ou perfeições possíveis, unificadas num Ato Puro de Ser, com atividade interna e externa. O ser das criaturas, recebido e mantido ao longo de sua existência por Deus, será uma combinação das mesmas atividades divinas, porém em grau finito.” (Lulio-2001-pag. 21)

Desta forma, semelhanças, concordâncias ou discordâncias existentes na criatura serão reflexos das existentes nas atividades divinas. De acordo com Jaulent:

“dirá que a bondade é a razão pela qual o que é bom faz, produz, e comunica o bem”.

O entendimento humano se dá a partir da realidade do Ser primeiro, Deus e a um conjunto de princípios ativos que Lúlio denominará Virtudes ou Dignatatis Dei, princípios ativos primitivos [originais] e absolutos: Bondade, Grandeza, Duração [eternidade], Poder, Sabedoria, Vontade, Verdade e Glória.

Com sua Arte (Ars) Lulio proverá os meios de argumentação para provar que Deus, nas três religiões monoteístas (judaísmo, cristianismo e islamismo), é o mesmo. O método de argumentação consiste basicamente num processo de associações das conveniências, diferenças e oposições, necessariamente apresentadas nas Dignidades divinas com as conveniências, diferenças e oposições que os princípios apresentam nos seres criados. Considerando que os princípios primitivos são mais intensos, está implícito o que mais convém ao ser e, quando infinitos, necessariamente terão de ser, na medida em que tais Dignidades são identificadas, cada uma delas, com a Essência Divina. Conforme demonstrado por Lúlio:

“A eternidade é algo de bom: Boa coisa é a eternidade, pois o bem e o ser convêm à eternidade; e eternidade e ser à bondade. Se a eternidade fosse coisa má, o não-ser e a bondade estariam de acordo entre si contra o ser e a eternidade; e se isto fosse assim, os homens, as plantas e as feras desejariam não-ser, o que não acontece de modo algum, pois é uma realidade todos amarem ser e deixarem de amar o não-ser.” (Lulio-2001- pag.22)

Observamos assim que os argumentos aqui demonstrados fundamentam-se na realidade e no que acontece no mundo, diferentemente dos processos dedutivos amparados em ideias pré-concebidas.

O LIVRO DO GENTIL E DOS TRÊS SÁBIOS

Importante obra apologética fundamentada em seu método da Arte, ainda que menos esquemático do que expõe em sua obra Arte Breve⁶ , Lúlio de início faz referência ao seu sistema lógico-demonstrativo com vocábulos convenientes que melhor demonstrem sua ciência. Divide o livro em quatro, sendo o primeiro destinado a provar a existência de Deus e a ressurreição, o segundo livro é do judeu, o terceiro do cristão e o quarto do sarraceno, nos quais cada sábio representante de uma religião pretenderá provar sua crença valer mais que a dos outros.

Na sequência apresenta um gentil⁷, muito sábio em filosofia, refletindo sobre sua velhice, a morte e os bens deste mundo. Este desconhecia Deus, não acreditava na ressurreição ou qualquer coisa após a morte. Sofria com isto, lamentava-se e chorava a perda da vida mundana, a qual tanto amava, enchendo-se de terror com o pensamento da morte. Em meio a tais considerações parte em busca de um remédio para sua tristeza, pensando encontrar uma floresta com fontes e árvores carregadas de frutos que sustentassem sua vida.

Chegando a um grande bosque, encontra a fonte, belos pássaros, riacho e árvores e dóceis animais, entretanto, retornam seus pensamentos de morte, crescendo-lhe no coração a dor e a tristeza. Mergulhado nesses tristes pensamentos sai caminhando de um lugar para outro tentando distrair-se, mas com mais força lhe movem os pensamentos de morte. Com grande angústia e sem saber que conselho tomar ajoelha-se na terra, levanta as mãos e os olhos para o céu, beija a terra suplicando piedade. Parte novamente por uma trilha seguindo por ela.

Enquanto isso, três sábios – um judeu, um cristão e um sarraceno – encontram-se na saída da cidade, saúdam-se e saem caminhando em busca de um recreio para suas almas cansadas pelo estudo alcançando aquela mesma floresta por onde andava o gentil, uma bela pradaria, uma fonte aprazível e cinco árvores significadas com letras. Junto à fonte, uma bela mulher, nobremente vestida, cavalgando um belíssimo cavalo se apresenta aos sábios que lhe perguntam o nome, das propriedades das cinco árvores e o significado das letras escritas em cada uma das flores. A dama responde ser a Inteligência e descreve os significados:

– “As flores da primeira árvore significam – Deus e suas virtudes incriadas essenciais, e estabelecem duas condições principais: reconhecer e atribuir a Deus a maior nobreza na essência, nas virtudes e nas obras; a segunda, que as flores (virtudes divinas), não sejam contrárias umas às outras, nem sejam menos do que as outras”.

– “Na segunda árvore vêm escritas em suas flores sete virtudes (divinas) da primeira árvore e, as sete virtudes criadas, pelas quais o bem aventurado alcance a felicidade eterna. Suas duas condições estabelecem que, as virtudes criadas sejam tanto ou mais nobres para demonstrar as virtudes incriadas e que ambas nunca sejam contrárias”.

– “A terceira árvore têm escritas em suas flores as sete virtudes divinas [incriadas] da primeira árvore e, os sete vícios, pecados mortais. Também apresenta duas condições:
primeira, que as virtudes divinas não concordem com os vícios e a segunda: convém afirmar tudo aquilo que for contrário à maior significação anteriormente dita, e tudo quanto diminua a contrariedade entre as virtudes, Deus, e os vícios humanos, salvas as condições das outras árvores”.

– “Nas flores da quarta árvore estão significadas as sete virtudes criadas e suas duas condições são: nenhuma virtude seja contrária à outra e, em segundo lugar: aquilo que for mais conveniente seja maior e tenha maior mérito, seja verdadeiro; o contrário disto seja falso, salvando-se as condições das outras árvores”.

– “A quinta árvore traz em suas flores significadas, as virtudes criadas e os sete pecados mortais. Suas duas condições são: primeiro, que as virtudes nunca concordem com os vícios e, a segunda: que as virtudes mais contrárias aos vícios sejam as mais amáveis e os vícios mais contrários às virtudes sejam os mais odiosos”.

A síntese das dez condições resume-se a dois princípios:

– Primeiro: todas as dez condições concordem com um fim;

– Segundo: que não haja oposição a esse fim, ou seja, o de amar, conhecer, temer e servir a Deus.

Após ter dito estas palavras aos sábios, a mulher despede-se e os três sábios suspiram dizendo da grande bem aventurança dos homens estarem sob a luz de uma mesma Lei e de uma só crença, sem o rancor e a má vontade promovida pela diversidade e contrariedade de crenças e de seitas. Havendo um só Deus, Pai, Criador e Senhor de toda a existência haveria união entre os povos no caminho da salvação. Mediante isto, juntam-se os três sábios para discutir frente às razões demonstrativas e necessárias aquilo em que acreditavam. Neste momento viram a chegada do gentil que caminhava pela floresta, um homem cansado, magro e sofrido, coração palpitante e olhos cheios de lágrimas. Saúda os três sábios que lhe retribuem a saudação dizendo “que o Deus da glória, Pai e Senhor de tudo quanto existe e que havia criado todo o mundo, que ressuscitará os bons e os maus, lhe valesse, o consolasse e o ajudasse em seus trabalhos”.

Atento a tudo que o circunda o gentil maravilha-se das palavras ouvidas e de tudo o que vê. Questionado sobre o que se passava em seu coração pelos sábios, diz ter vindo de terras distantes, caminhando como saído da razão⁸ por aquela floresta. Conta-lhes de sua dor, sua descrença e de seu sentimento mediante a saudação recebida pelos sábios. Estes movidos pela caridade e piedade decidem demonstrar ao gentil a existência de Deus, suas virtudes e a esperança de ressurreição, argumentando pelas flores das cinco árvores, para alegrar sua alma e levá-lo ao caminho da salvação.

Num primeiro livro os três sábios seguirão o raciocínio envolvendo as três realidades – as sete virtudes divinas, as sete virtudes criadas e os sete vícios – respeitando as dez condições e as três verdades: Deus existe; a representação das virtudes divinas significadas nas flores da primeira árvore; e a esperança da ressurreição.

Entusiasmado, o gentil agradece por ter sido libertado do erro em que se encontrava, ajoelha-se e adora fervorosamente a Deus. Pede instrução aos três sábios para pregar entre familiares, amigos e ao povo em geral de sua terra, que se encontravam no mesmo erro em que ele estivera até então. Contudo, ao descobrir que os três sábios respondem por leis e crenças diferentes, lamenta-se da nova situação:

“- Ah, senhores! Em quão grande alegria e esperança me havíeis colocado! Mas agora me fizestes retornar a muito maior ira e dor do que costumava estar, porque depois de minha morte não tinha temor de sustentar trabalhos infinitos. Mas agora estou certo de que, se não estiver no caminho verdadeiro, toda pena está já pronta para atormentar perenemente a minha alma depois de minha morte! Ah, senhores! E que ventura é esta que me havia tirado de tão grande erro em que estava a minha alma? E por que minha alma retornou a dores muito mais graves que as primeiras”. (Lulio-2001- pag. 26)

Diante da angustia do gentil, os três sábios decidem provar separadamente suas respectivas crenças, estabelecendo a regra de que somente o gentio poderia contestar ou fazer perguntas ao sábio que estivesse falando.

Nos livros II, III e IV serão mostradas ao gentil as verdades da fé de cada um dos sábios por ordem de antiguidade e conteúdo doutrinal, dos quais Lúlio mostra seu conhecimento sobre a Lei do povo judeu e a Lei islâmica.

Após as três exposições, o gentil dirige-se a Deus numa longa e ardente oração de gratidão, cujo conteúdo poderia ser aceito pelas três religiões.

Terminada a oração o gentil vê-se diante de dois companheiros que se encontravam no mesmo erro e pede aos sábios que permaneçam para conhecerem a religião que havia escolhido. Entretanto, os sábios preferem partir alegando ser este um assunto a ser discutido entre eles, pela força da razão e pela natureza do entendimento, e que não teriam mais assunto para discutir, nem verdade a descobrir se o gentil revelasse a Lei que mais ama.

Na conclusão de sua obra, Lúlio descreve um interessante diálogo entre os três sábios ao retornarem do bosque para a cidade, sem, no entanto, revelar a fé de cada um. Um dos sábios retoma a ideia defendida por Lúlio acerca de uma única fé, uma só Lei, uma única seita, uma única maneira de amar e honrar Deus e que todos fossem amantes e ajudantes uns dos outros e não houvesse diferenças nem contrariedades de fé, nem de costume, salientando que, por estas diferenças e contrariedades uns são inimigos dos outros, fazem guerras e se matam tornando-se cativos uns dos outros e, são impedidos de louvar e reverenciar a Deus.

Outro sábio, fala acerca dos muitos homens enraizados na fé por herança de pais e antepassados e que seria impossível alguém afastá-los disso através de pregações, disputas ou qualquer outra coisa que lhes fosse dita querendo mostrar o erro. Desprezariam tudo o que lhes fosse dito, permaneceriam e morreriam na fé na qual foram criados.

E outro sábio responde dizendo:

“[….] é da natureza da verdade estar mais fortemente ligada a alma do que a falsidade. Na realidade a verdade concorda com o ser, e, a falsidade concorda com o não-ser. Por isso, se a falsidade fosse combatida continuamente pela verdade, e por muitos homens, necessariamente a verdade venceria a falsidade, sobretudo não tendo a falsidade nenhuma ajuda de Deus, nem pouca nem grande, e sendo a verdade sempre ajudada pela virtude divina, que é a verdade incriada, que criou a verdade criada para destruir a falsidade” (Lulio-2001-pags. 246-247).

Fazendo um parêntese, observar que o trecho ora citado demonstra claramente o método seguido por Lúlio ao longo de toda a obra, bem como de todas as outras. A sequência de argumentações lulianas, apoia-se sempre no princípio da conveniência, princípio que tem de ocorrer, ou ser; o que é inconveniente não pode ser. Tal aplicação supõe necessariamente o conhecimento do que é ou não é tendo-se em conta que para Lúlio as realidades são atos – comparar realidades é comparar atos, ou seja, ver até que ponto são congruentes.
A filosofia luliana é a filosofia do Bem, assim, toda realidade manifesta-se na natureza como um bem (ens bonum), portanto é amável. Consequentemente, a carência de ser será odiável. A partir de tais pressupostos, podemos perceber que o que é conveniente é sempre amável e o que não é conveniente é odiável, conforme descrito por Jaulent.

Concluindo a obra, ao chegarem ao ponto de partida, na cidade, os sábios despedem-se pedindo perdão um ao outro caso tivessem dito contra sua Lei alguma palavra vil. Perdoaram-se e um dos sábios sugeriu que todos os dias e uma vez por dia disputassem seguindo as instruções que a Dama Inteligência lhes havia mostrado e, que o debate durasse até que os três tivessem uma só fé e uma só Lei. “Porque a guerra, o trabalho e a malevolência, e o fazer dano e ultraje impedem que os homens concordem em uma crença.”

CONCLUSÃO

A obra sobre a qual se desenvolve o presente artigo, embora aqui muito resumido, retrata fundamentalmente o propósito sobre o qual Ramon Llull dedica toda sua existência, quer seja, a conversão do infiel, através do diálogo, o que contraria em todos os aspectos a conversão forçada, geradora de tão grandes males conforme nos atesta a história. Entretanto, ao contrário de apontar erros aos infiéis desenvolveu seu método, a “Arte”, buscando os pontos que unem as três religiões, um único Deus e os princípios absolutos que O definem, e, assim demonstrar a primazia da fé cristã e, de acordo com Pardo (2004-pag. 45), “demonstrar os elementos principais que as separam, quer seja, a Essência da Trindade e que Cristo é o Filho de Deus Encarnado”. Atesta assim sua postura frente às outras duas religiões: “Imponho este nome “infiéis” aos judeus e aos sarracenos, (ROL I:489)”.

A “Arte” de Ramon Llull, seu método, nasce da necessidade em desenvolver uma obra missionária inovadora, diferente das já existentes, fundamentada na verdade, que para ele representava a libertação do homem. Sem dúvida, esta é uma das originalidades do sistema luliano, conforme o autor:

“Concede (supostamente) aos infiéis a possibilidade de que estejam na verdade. Para todos os integrantes de uma discussão, a procura da verdade é muito importante para a consecução do verdadeiro diálogo, pois a verdade torna o homem livre. Esta procura da verdade faz com que Llull considere que o outro possa ter a verdade (e na mesma regra, que ele mesmo se encontre errado) […..], e continuando mediante regras de raciocínio aceites por todos, é possível mostrar-se o esplendor da Trindade do dogma cristão”
(Pardo-2004-pág. 57).

Conforme salientado na introdução deste artigo, a razão é fundamental para Llull, na medida em que afirma que o homem foi feito para entender e não para crer. Entendimento que se estabelece nas relações necessárias entre os princípios da verdade fundamentadas na razão, e não segundo deduções [ideias] destes princípios. Para ele, conforme Pardo, a fé nos proporciona o acesso às realidades divinas superiores, entretanto devemos, sempre, com ajuda da razão intentar penetrar nos mistérios da fé e tentar entende-los. Ampliando esse espaço, e mesmo considerando a fé, ainda que não só no âmbito religioso, haveríamos que, conforme levantado na introdução deste artigo, apreender que nessa intensa invasão de privacidades, geradas nos meios de comunicação tecnologizados, na qual estamos submersos por agitadas marés de informações construídas e ampliadas, entre ameaças de terror ou promessas de felicidade apoiadas na mentira, criadas e ou deduzidas, poderíamos questionar quantas “ideias” são germinadas na ausência do uso do pensamento, do sentimento e da ação, em síntese na ausência da consciência, da verdade. Vê-se aqui o homem distanciando- se do que, talvez, Lulio chamaria de um distanciamento ou negação das relações necessárias. Conforme Keppe, psicanalista e filósofo contemporâneo, “o homem escolheu o nãoser para tentar ser – como se ligado ao Ser Divino, estivesse eliminando a si próprio” (Keppe,1999-p.79), fato este gerador das inversões nas quais grande parte da humanidade está submersa, vivendo alienada da realidade e angustiadamente em busca de algo idealizado, portanto inexistente, quando tudo de que ele precisa está diante e dentro de si.

Notas

Maria Regina T. Weckwerth

1 Graduada em Psicologia pela Universidade São Marcos, nos anos setenta. Especializou-se em Gestão de Conflitos com orientação na Psicosociopatologia nos anos 2000. Aos 2018, cumpre e defende Mestrado em História Medieval da Península Ibérica, na Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL), passando a integrar o corpo docente da Faculdade Trilógica Keppe & Pacheco, em Cambuquira, MG, nas disciplinas de Artes e Teologia Trilógica.

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LÚLIO, Raimundo – O livro do gentio e dos três sábios (1274- 1276); JAULENT, Esteve: Introdução, tradução e notas. Petrópolis, RJ: Vozes, 2001.
LLULL, Ramon – Vida Coetânia. Tradução: COSTA, Ricardo; Revisão: FIDORA, Alexander (Johan Wolfgang Goethe – Universität, Frankfurt am Main); Supervisão: REBOIRAS, Fernando Dominguez (Raimundus-Llullus, AlbertLudwigs-Universität). Site: www.ricardocosta.com.br visitado em 22/10/2016.
PARDO, Pastor Jordi – Diálogo Interreligioso real ou aparente durante a Idade Média. htpps:\\ dialnet. unirioja.es/ descarga/articulo/2227031.pdf – Palestra Centro de Cultura Judaica – 2004- Site visitado 11/09/2016
SORIA, José Manuel Nieto (Director) – La Monarquia como conflito em la Corona Castellano-Leonesa (c. 1230-1504):
OBRADÓ, Maria del Pilar Rábade: Cap. 6 – Judeoconversos y monarquia: um problema de opinión pública. Impresso em España por: ELECE, Indústria gráfica.

Revista Psicanálise Integral Volume 33 – nº 39 – Dezembro de 2022

Vol. 33 n. 39 (2022)

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