A Sociedade Trilógica

Cláudia Bernhardt de Souza Pacheco¹

Trilogical Society

Nova York, 1987

RESUMO

As residências da Sociedade Trilógica oferecem uma alternativa econômica para viver em um ambiente de cooperação e relacionamento humano. Seu objetivo é criar um ambiente favorável e eficaz do trabalho com os problemas e dificuldades que todos os seres humanos têm com sua própria vida, com os outros e com a sociedade em geral. A função comunitária é estritamente científica e pragmática, e trabalha no sentido de melhorar a qualidade de vida da sociedade como um todo.

Palavras-chave: Trilogia Analítica, Residência Trilógica, Vida em Sociedade, Psicoterapia, Socioterapia.

ABSTRACT

The residences of the Trilogical Society offer an economical alternative to live in an environment of cooperation and human relationship. Its objective is to create a favorable and effective working environment with the problems and difficulties that all human beings have with their own lives, with others and with society in general. The community function is strictly scientific and pragmatic, and works to improve the quality of life for society as a whole.

Keywords: Analytical Trilogy, Trilogical Residence, Life in Society, Psychotherapy, Sociotherapy.

 

Texto

Não creio que, após a leitura do livro A Libertação dos Povos – A Patologia do Poder, de Norberto R. Keppe, ainda alguém duvide que medidas imediatas e eficazes devam ser tomadas para a mudança da sociedade. Essa forma de vida que vínhamos mantendo até agora está insustentável. Nossa tendência tem sido empurrar para baixo do tapete a consciência de problemas gravíssimos que vemos à nossa volta, pois não tínhamos meios de trabalhar com eles. Primeiro porque não sabíamos as causas mais profundas; segundo, porque não tínhamos uma saída razoável.

Dentre as atividades da Sociedade de Trilogia Analítica, uma das mais bem-sucedidas foi a formação de sociedades trilógicas experimentais, com residências, escolas, empresas trilógicas, atividades recreativas e artísticas.

É importante expressar que não quisemos formar comunidades isoladas da sociedade global já existente, mas pretendemos, através de pequenas adaptações, uma total reformulação na filosofia de vida — transformar as sociedades humanas, dando-lhes condições imediatas de grandes impulsos e resultados práticos evidentes.

Essas residências são uma nova proposta de organização social, onde o poder econômico-social não é o dominante, mas o bem-estar do ser humano.

Os resultados dessas residências foram tão benéficos, que cresceram 900 por cento em dois anos.

Como surgiu a sociedade trilógica

A Sociedade Trilógica foi formada em março de 1984, quase que acidentalmente, para solucionar problemas econômicos e psicossociais emergenciais de um grupo de indivíduos, de várias nacionalidades, que viviam em Nova Iorque.

Na verdade, jamais havíamos pensado em vida comunitária. Muito pelo contrário, a ideia nos era bastante repulsiva, pois todas as comunidades formadas até então, ou pecam pela extrema promiscuidade, desordem e libertinagem, ou pelo fanatismo puritano e moralista de religiosos de vários credos.

Havia denominadores comuns: todos eram indivíduos com a mesma filosofia de vida trilógica e eram conhecidos entre si — além das dificuldades que também eram comuns. Poderíamos pensar que a sociedade trilógica deu certo só por esse motivo, mas mais adiante veremos que isso não é verdade, pois a sociedade recebeu também indivíduos desconhecidos da Europa e que nunca haviam tido contato com a Trilogia e que se adaptaram perfeitamente bem à vida trilógica.

Inicialmente, foi comprada uma casa grande, e era intenção que esta casa servisse às necessidades de três indivíduos e abrigasse alguns amigos, temporariamente. Um pagamento inicial foi dado (30 por cento do valor total) para a compra da casa e o restante foi financiado por um banco, para ser pago em quinze anos, com prestações mensais.

Mas, em virtude de os preços dos imóveis em Manhattan serem proibitivos (excessivamente altos e as exigências de depósito, leis de inquilinato, referências, etc.), concordamos em orientar um grupo inicial de dez indivíduos até que esses encontrassem melhores empregos e meios de subsistência por si próprios. Porém, com o decorrer do tempo, os planos iniciais mudaram consideravelmente, e as residências passaram a ser uma realidade definitiva.

Os primeiros tempos da vida trilógica

A casa situada em Yonkers, um bairro distante quarenta minutos do centro de Manhattan, não estava, como disse, preparada para servir a uma vida comunitária. Era um imóvel antigo, do início do século, porém bem cuidada pelas duas famílias que nela anteriormente habitaram.

Ela somente dispunha de três banheiros e seis dormitórios. Além da sala de estar, sala de jantar e cozinha, havia um “basement” (porão) grande, confortável lavanderia e depósito de materiais. Toda rodeada de jardins, tinha nos fundos uma garagem para dois carros, velha, sem aquecimento, que também servia de depósito de materiais.

Obviamente, no início, não foi fácil para todos se acomodarem, nessa nova vida conjunta. Os quartos foram divididos entre todos — mulheres dormiam em quartos separados dos homens e cada grupo usava o banheiro de um andar. Os casais tinham os seus quartos privativos. O porão foi logo reformado e adaptado para sala de estudo durante o dia e dormitório à noite.

Isso permitiu que todos, embora sem o conforto desejado, ficassem acomodados no fim de inverno nova-iorquino. Tinham casa aquecida, camas para dormir, e um local para cozinharem suas refeições de maneira econômica. A comida dos restaurantes, além de cara, não era saudável. Não havia crianças no início da sociedade, mas 9 meses depois um dos casais teve o seu primeiro filho.

Pouco a pouco, todos se ajudando, foram conseguindo melhores empregos. A cooperação era necessária para a sobrevivência de todos no país estranho. Quando alguém precisava de dinheiro emprestado, havia sempre aquele que aceitava colaborar. O mesmo com relação à língua e troca de serviços. Os que falavam inglês (americanos) ajudavam os outros nas entrevistas para emprego etc.

Posteriormente, com a formação das empresas trilógicas, onde todos eram sócios e com a mesma filosofia, as dificuldades econômicas de todos foram resolvidas.

 

A vida diária na sociedade

Logo de início foi necessário que se estabelecessem certas normas básicas de disciplina social a fim de que a vida se tornasse mais fácil e agradável para todos. Foi concordado que todos, homens e mulheres, participariam das tarefas de limpeza da casa e do jardim. Rodízios de tarefas foram determinados e havia sempre um coordenador encarregado da distribuição e cobrança dos serviços.

Quem sabia melhor lavar e passar roupa, logo começou a cuidar, nas horas vagas, das roupas dos companheiros — cobrando uma pequena taxa pelo trabalho. O mesmo com as refeições, serviços de costura, cabeleireiro, reparos na casa etc. Três elementos da sociedade compraram peruas que utilizavam para trabalho de entregas durante o dia e de transporte para os elementos da sociedade de manhã, à noite, e aos fins de semana (para viagens, passeios, mudanças de móveis, levar e trazer pessoas do aeroporto etc.) Isto permitiu à sociedade uma autonomia, sem se basear necessariamente no uso do dinheiro, mas na mútua prestação de serviços.

Um dos problemas maiores que surgiu logo de início era com relação ao uso da cozinha e dos banheiros. As geladeiras da sociedade estavam superlotadas de comida e havia muita confusão com relação ao o que era de quem. Da mesma maneira, o uso dos banheiros se tornou difícil, pois, geralmente, todos saíam para o trabalho mais ou menos na mesma hora.
Escalas noturnas e diurnas foram logo estipuladas e ninguém poderia demorar nos banheiros. Em pouco tempo, e com facilidade, soluções racionais e práticas foram adotadas, ficando todos os problemas contornados.

Quanto às refeições, ficou estipulado que haveria um caixa geral onde as contribuições serviriam para comprar ingredientes e pagar uma cozinheira que cuidasse das refeições para todos. O mesmo com o cuidado da casa e das roupas.

Horários de silêncio na casa foram logo estipulados, numa tentativa de se evitar muito barulho nas horas de dormir e estudar. E certas normas de asseio e recato com o vestuário procuravam ser respeitadas.

Um manual de disciplina caseira foi logo elaborado, principalmente para aqueles que tinham maior dificuldade em reprimir o egoísmo na vida social.

 

Logo os problemas começaram

Como era de se esperar, logo os problemas de relacionamento começaram a aparecer. Probleminhas tornaram-se grandes dentro de uma casa comum.

Por exemplo: 1) uns pegavam as comidas dos outros da geladeira, sem avisar e sem repor. 2) alguns demoravam muito para sair do banheiro e gastavam muita água quente, com prejuízo para os que viriam depois e teriam que tomar banho com água fria. 3) o telefone de uso comum sempre trazia ligações internacionais “sem dono”. 4) algumas tarefas comunitárias eram esquecidas ou negligenciadas (ex.: o lixo não era recolhido; o jardim e quintal não eram varridos; a casa ficava em desordem etc.)

Mas o principal foi a crise de paranoia que se desencadeou entre todos os moradores: todos se criticavam entre si e todos se sentiam vigiados pelos demais: era a censura social manifestada em toda a intensidade. Através da psicoterapia feita em grupos e em sessões individuais, esse problema também foi contornado. Nas vidas familiar e social tradicionais, a paranoia e a censura ficam totalmente à solta, sem possibilidade de corrigi-las. Quando um indivíduo se sente censurado ou restringido por alguém, simplesmente se afasta dele, perdendo a chance de interiorizar aquele objeto de projeção (a própria autocensura projetada no outro) e resolver definitivamente o problema. Isto não acontece nas residências trilógicas onde a paranoia é analisada e resolvida.

No início, alguns tentaram viver fora da sociedade durante a semana e só visitá-la nos fins de semana, mas posteriormente todos desistiram da ideia por notarem que, trabalhados os problemas, a nova organização social se tornara muito melhor do que outras opções tradicionais.

 

Os grupos de conscientização dos erros da sociedade

Como tantas dificuldades surgiam e as sessões individuais não eram suficientes para resolvê-las, grupos de conscientização dos erros da comunidade foram instituídos em grupos de psicoterapia, em que eram tratados de problemas como: o indivíduo X faz muito barulho na casa após as 11:00 p.m.; o indivíduo Y pega comida dos outros na geladeira; o indivíduo Z atrasa no pagamento do transporte; o indivíduo W faz muitas intrigas e fofocas moralistas; o indivíduo A fala muito alto; o indivíduo B pega roupas dos outros sem pedir licença; o armário do indivíduo C é muito bagunçado, etc., etc., etc.

Logo ficou claro, entretanto, que essas eram manifestações práticas e evidentes dos problemas mais sérios como: inveja, megalomania, censura, moralismo, egoísmo, narcisismo, fatores que estão totalmente à solta na grande sociedade. De fato, muitas características psicopatológicas que jamais seriam descobertas numa vida familiar tradicional, onde todos viviam separadamente em suas casas, eram passíveis de serem descobertas e tratadas então.

Ninguém consegue mascarar o tempo todo a própria psicopatologia — e na sociedade havia o grupo todo para detectá-la e trabalhar com ela nos grupos de psicoterapia.  Por exemplo, o indivíduo antes tido como gentil, amável, agora mostrava crises de mal humor matinais, individualismo, falta de afeto. E isso fazia com que ele tivesse, pela primeira vez, que enfrentar esse problema, e corrigi-lo — sem possibilidade de fuga. .

As quatro horas dos dois grupos semanais pareciam insuficientes para tudo o que se tinha que tratar. Um farto material para análise surgiu — quem via os grupos de psicoterapia de agora não poderia reconhecer as mesmas pessoas que participavam dos grupos de psicoterapia tradicionais realizados anteriormente, quando todos viviam nos moldes tradicionais. A teorização, a tapeação, a intelectualização não eram mais possíveis nessa situação. Em suma: ninguém podia escapar da consciência de seus problemas, o que, a curto prazo, tornou-se um grande alívio.

 

A psicoterapia da vida social trilógica

O que mais nos surpreendeu, como cientistas do campo da psicoterapia, foi perceber que o efeito socioterapêutico das residências trilógicas é enorme.

Muitos problemas, antes quase que insolúveis em certos clientes, agora podiam ser trabalhados. Por exemplo: R.F., 24 anos, tinha vida solitária, sem amigos, não trabalhava, não estudava, totalmente dependente do pai para sobreviver.

Estava constantemente em delírios, perseguido por visões de demônios e causava muita preocupação para a família. O mesmo indivíduo, agora na sociedade, trabalhou diariamente durante um ano numa loja de modas, onde era caixa. Atualmente é sócio proprietário do irmão numa gráfica onde trabalha ativamente. Brevemente poderá ter total autonomia financeira. Tem amigos na sociedade, participa de todas as atividades, contribui nos trabalhos científicos, e seus delírios e alucinações acabaram por completo. Antigamente necessitava de quatro sessões de análise individual semanais para se manter em certo equilíbrio. Atualmente, com somente duas sessões consegue viver melhor, pois a vida social trilógica já resolve a maior parte de seus problemas.

I.S., 24 anos, sempre teve problemas enormes de relacionamento com a família. Sempre brigando com os irmãos, muito mais com a mãe, estava pronta a deixar sua casa. Na sociedade foi obrigada, pouco a pouco, a ter enorme mudança: deixou muito de seu egoísmo de lado, de sua preguiça, vaidade e isolamento. Sua paranoia era constantemente conscientizada pelo grupo, com afeto mas firmeza — e pouco a pouco ela foi se engajando nas atividades, dando mais afeto para os outros, tendo mais consideração pelo próximo — o que lhe permitiu um desenvolvimento considerável, tornando-se inclusive mais agradável e feliz.

R.P., 14 anos, era muito arredio, não gostava absolutamente de estudar ou trabalhar. Desligado da família, em constantes brigas com a irmã, era uma presa fácil de más companhias. Sem ideal, isolado e muito agitado, logo teve que enfrentar seus problemas, pois na sociedade todos o ajudavam a crescer com seriedade e afeto. Suas notas na escola foram gradualmente melhorando até atingir a menção honrosa. Suas amizades se firmaram, foi convidado a estudar numa escola para jovens estudiosos e durante as férias passou a trabalhar, tornando-se um elemento produtivo para a sociedade, para a grande sociedade e para si mesmo.

Outro aspecto muito interessante é como os casais vivem dentro da sociedade. As brigas e os pactos podem ser evitados, cortando-se o mal pela raiz, assim que surgem. Por exemplo, o casal M.B. e A.F. era sempre auxiliado, pois cada vez que um dos dois era invejoso e tentava estragar a vida de seu parceiro, o grupo não permitia: os ciúmes dela eram controlados pela sociedade e a preguiça e agressividade dele também eram conscientizadas.

Nesse tipo de sociedade, os pais não têm chance de agredir os filhos e vice-versa, pois os amigos não deixam que isso vá longe: todos os problemas são logo detectados e tratados nos grupos de conscientização.

 

As crianças nas sociedades trilógicas

As crianças nas sociedades trilógicas têm uma especial atenção. Todo o apoio é dado ao seu desenvolvimento pessoal, escolar e social. São orientadas para o valor do trabalho e da realização boa, bela e verdadeira. Embora nenhuma religião seja oficialmente adotada, os valores mais éticos e espirituais são incentivados.

É muito importante que os pais sejam reprimidos pelas sociedades trilógicas no sentido de não descarregarem em seus filhos os seus problemas pessoais. Sabe-se que, na sociedade atual, onde eles vivem em constante tensão e estresse, um milhão de crianças são chutadas, mordidas e seriamente maltratadas pelos pais; 63 por cento dos pais usam alguma forma de violência para com seus filhos; 54,9 por cento os esbofeteia ou espanca e 30,7 por cento dos pais atacou, agarrou ou empurrou os seus filhos em 1985 (Estudo feito pelo Instituto Nacional de Saúde Mental, dos E.U.A.).

Como a vida afetiva dessas sociedades é muito cultivada, problemas de desajustamento social, ou psicológico sérios, são inexistentes. As crianças e jovens se adaptam imediatamente às sociedades trilógicas. Drogas, suicídios, alcoolismo, gravidez juvenil, abortos, doenças venéreas, isolamento, tão comuns na juventude atual, são inexistentes entre as crianças e jovens que podem crescer num ambiente de liberdade, afeto e responsabilidade.

É interessante notar o grande interesse que eles adquirem pelo estudo, trabalho e cultura (artes, literatura, música etc.). Talentos são despertados e a criatividade é cultivada ao máximo. As crianças aprendem a usar corretamente e a desenvolver a inteligência. Como todas se sentem muito satisfeitas com a vida que levam, não têm a necessidade de buscar meios de alienação destrutivos. Tornam-se independentes, porém muito mais afetivas e preocupadas com o bem estar de sua família e da sociedade em geral.

A intensa atividade cultural dessas sociedades (embora todos sejam livres para participar dela ou não) leva a um enriquecimento, ao despertar de talentos antes adormecidos nas crianças e adolescentes. Por exemplo, a presença de um pianista numa das residências trilógicas levou várias crianças a se interessarem pelo estudo musical, o que não aconteceria caso vivessem só com os pais.

De outro lado, uma convivência próxima com indivíduos de várias profissões cria uma gama muito maior de modelos de escolha para os profissionais de amanhã, sendo que a criança pode pesar os prós e contras de muitas profissões e escolher a que mais lhe agrada, não de uma maneira fria e teórica, como acontece no aconselhamento vocacional nas escolas, mas de uma forma vivencial.

Tudo isso é conseguido somente com uma educação correta nas casas e escolas, além da orientação psicológica, no sentido da aceitação da consciência dos erros e do cultivo da verdade e bondade. Nenhum método punitivo (como castigo ou espancamentos), tão amplamente usados nas famílias tradicionais, foi utilizado.

As crianças são educadas por todos da sociedade — o que alivia muito o trabalho dos pais. Foi criada uma escola maternal trilógica, onde os professores, todos especialmente treinados, complementam a orientação recebida nas casas e escolas tradicionais, ao mesmo tempo que possibilita uma maior liberdade aos pais. Por outro lado, a oportunidade de relacionamento próximo com vários indivíduos, deixou a todos gradualmente mais felizes e muito apegados aos amigos da sociedade.

Os mais velhos têm sempre companhia; as crianças sempre têm quem cuide delas sem, ao mesmo tempo, um controle excessivo (característicos da vida familiar tradicional).
Ninguém tem tempo para ficar com suas fantasias, isolado — há sempre alguém que vem para dar uma palavra amiga, ou para pedir um conselho, ou para contar uma novidade, ou para compartilhar uma descoberta científica interessante, ou até mesmo trazer um café quentinho…

As fofocas sempre começam, o moralismo também é um problema sério a ser tratado — porém, nada disso cresce sem que seja conscientizado e controlado por todos. Os mais queridos são sempre os mais produtivos e afetivos. O que não acontece na sociedade, em geral, onde os golpistas e desonestos têm o poder e reconhecimento social.

Logo alguns líderes são escolhidos. Porém se iniciam uma atitude destrutiva de abuso de poder (arrogância, megalomania, inveja ou omissão) são logo substituídos por outros, portadores de atitude melhor.

A sociedade trilógica não pretende ser ideal, ou ter indivíduos perfeitos. Pretende ser o primeiro local onde haja a conscientização dos erros, para que, com tolerância, o grupo comunitário e seus indivíduos possam progredir num clima de cooperação, afeto e honestidade, tratando dos problemas humanos fundamentais que em nenhum outro local são tratados: a inveja, a desonestidade, a megalomania, a preguiça, o moralismo, a hipocrisia, a libidinagem etc.

 

A ampliação da sociedade trilógica

Devido a esse firme ideal, as residências trilógicas foram gradualmente se ampliando. O que de início não passava de uma solução transitória e precária foi pouco a pouco ganhando forma e força.

Além da primeira casa, existiram mais dois pequenos prédios de apartamento abrigando as sociedades em Nova Iorque, sem que nenhuma divulgação sobre elas tivesse sido feita.

A primeira residência de São Paulo já estava lotada mesmo antes de ser inaugurada e novas unidades na Suécia, Portugal, Bélgica, Holanda e demais países da Europa foram sendo organizadas.

 

Objetivos

Com o decorrer do tempo, objetivos mais claros foram delineados. Percebemos que as residências trilógicas oferecem uma alternativa econômica para viver em um ambiente de cooperação e relacionamento humano. Sua finalidade é a de:

· criar de imediato uma forma de vida alternativa independente da sociedade tradicional, que é dominada pelos poderes econômico-sociais;
· estimular o interesse pela ciência e cultura;
· encorajar altruísmo, honestidade e crescimento pessoal;
· ajudar ao indivíduo a se conscientizar das atitudes destrutivas (psicopatologia) que ele adota contra a própria vida;
· facilitar o intercâmbio científico, cultural e profissional internacional;
· congregar indivíduos do mesmo interesse profissional para empreendimentos comuns (empresas trilógicas) ou diferentes espécies de profissionais para a troca de conhecimento e serviços;
· ajudar aos que sofrem de solidão, insegurança, falta de integração social, dificuldades econômicas de qualquer ordem;
· melhorar a qualidade do relacionamento dos casais e famílias que vivem na sociedade;
· promover intercâmbio entre indivíduos de diferentes nacionalidades, para que os erros de cada cultura sejam corrigidos.

Pessoas de todas as idades, credos e raças podem conviver em residências trilógicas (i.e., estudantes, pais e mães solteiros com seus filhos, famílias inteiras, aposentados, idealistas, profissionais, cientistas etc.).

Nessas residências, o objetivo é criar um ambiente favorável e eficaz do trabalho com os problemas e dificuldades que todos os seres humanos têm com sua própria vida, com os outros e com a sociedade em geral.

A função comunitária é estritamente científica e pragmática, e trabalha no sentido de melhorar a qualidade de vida da sociedade como um todo.

 

Organização básica

As residências trilógicas podem estabelecer-se em prédios de apartamentos ou casas, cujo espaço é dividido entre os participantes. Somente o aluguel e outras despesas de manutenção (excluindo despesas pessoais) são divididas pelos moradores das casas. Cada indivíduo conserva sua vida econômica independente.

Todos os membros da sociedade devem ter sessões de aconselhamento trilógico individual e de grupo, pelo menos uma vez por semana. Nas sessões de grupo os problemas da sociedade são trabalhados sob a orientação de um socioterapeuta trilógico. Este é um aspecto essencial da Sociedade Trilógica e forma a base e atmosfera de colaboração e progresso entre os participantes.

Caso isso não seja feito, a psicopatologia dos seus integrantes, se não for conscientizada e controlada por um indivíduo treinado para isso, acabará por destruir a própria iniciativa.

Economia

As despesas dependerão do custo de vida local e serão sempre abaixo do que seriam para famílias ou indivíduos que vivessem sozinhos. Em caso de necessidade, crianças e aposentados poderão pagar taxas reduzidas. As compras de uso comum das residências trilógicas são feitas coletivamente de modo a economizar ao máximo, e evitar desperdícios e supérfluos.

Os profissionais de cada área trocam serviços sem exploração. Por exemplo: os dentistas, os cabeleireiros, os proprietários dos meios de transporte, as costureiras, advogados, médicos, empresários oferecem serviços e produtos a preços acessíveis, para que todos sempre possam ser atendidos com afeto e qualidade. Os artistas podem viver de sua arte sem intermediários exploradores, pois a beleza é parte essencial da vida trilógica e todos a prestigiam, comparecendo às apresentações regulares. Outra fonte de renda para os artistas são as aulas dadas para os residentes das casas trilógicas.

O fato é que nunca ninguém fica desatendido em qualquer necessidade material nessas residências. A cooperação e crédito são abertos para que todos tenham tudo de que necessitam. Por exemplo, uma pessoa desempregada, desde que seja honesta, jamais ficará sem abrigo e sem comida — tudo isso lhe é fornecido a título de empréstimo pelos próprios moradores das casas trilógicas até que tenha condições de saldar suas dívidas. A situação de cada caso será analisada pelo grupo de moradores, que decidirá que medidas poderão ser adotadas. Somente tendo todo o apoio e segurança de que casa e comida não irão faltar é que os indivíduos poderão se lançar nos seus próprios empreendimentos, e romper a dependência com o poder econômico-social.

Um dos moradores das residências trilógicas fez uma pesquisa em 1985, comparando a renda e as despesas pessoais de indivíduos que moravam fora e dentro das residências. Chegou à conclusão de que a quantidade de dólares gastos e economizados era muito diferente entre os indivíduos que participavam de uma organização social trilógica e os que viviam ainda dentro do sistema tradicional, onde todo dólar ganho era gasto para a sobrevivência.

Fundo comunitário

As residências trilógicas não devem ter fins lucrativos. Toda a receita das residências é utilizada em benefício delas mesmas e para a ampliação de novas unidades em outros países do mundo.

Caráter internacional

Todo membro da Sociedade Trilógica poderá, sempre que desejar e for possível, transferir-se para qualquer outra unidade existente em outros países. Por exemplo, o indivíduo que mora nas residências de São Paulo poderá requerer permissão para ingressar nas residências de Nova Iorque ou Estocolmo.

Saúde

Quando a estrutura econômico-social for modificada, a esmagadora maioria de doenças e acidentes será evitada. A grande tensão acumulada pelo sistema atual de valorização do poder, a impossibilidade de se viver em paz, numa sociedade onde os indivíduos têm que lutar pela sua sobrevivência, gera uma quantidade colossal de doenças e acidentes desnecessários.

Os médicos Juhed Abuchaim, Deise Iamada e eu fizemos uma pesquisa comparativa de saúde entre as populações dentro e fora das residências. Selecionamos 45 pessoas de cada grupo (22 mulheres e 23 homens), com idades de 14 a 65 anos, durante um período de 6 meses; todos os indivíduos eram ativos. Sintomas gerais como insônia, dores de dentes, cansaço etc. foram pesquisados, bem como problemas mais simples de saúde (resfriados, problemas de pele, alergias, problemas menstruais, enxaquecas etc.)

As pessoas que moram nessas sociedades apresentaram 7,76 por cento destas queixas, enquanto no estilo tradicional de vida a porcentagem é de 30,87 por cento. A intensidade dos sintomas físicos com relação aos indivíduos foram 2,38 sintomas por pessoa na Sociedade Trilógica e 6,30 sintomas por pessoa na sociedade tradicional. Com relação aos sintomas psicológicos, nas sociedades trilógicas foram apresentados 2,89 por pessoa e 1,17 na sociedade tradicional, mostrando que a conscientização de problemas emocionais é um aspecto essencial para a remissão dos sintomas, e que a maior alienação gera um maior acúmulo dos mesmos.

Atividades sociais

A sociedade trilógica fornece treinamento profissional suplementar em várias áreas, especialmente saúde e produtividade. Nas próprias residências existem grupos de estudos de medicina psicossomática, medicina preventiva, educação, assistência social, computação, administração de empresas, liderança de grupo etc. Há uma troca de serviços entre os profissionais de cada área (dentistas, médicos, costureiras, cabeleireiros, transportes, assessoria em geral) o que facilita a vida e a torna mais econômica. Os membros da sociedade frequentemente organizam atividades recreacionais como: visita aos museus, concertos, óperas, teatros, viagens, eventos esportivos etc., além das atividades culturais e recreativas dentro das próprias residências.

Não existe nenhuma programação rígida de horários na vida social trilógica. O indivíduo que nela vive tem a total liberdade de organizar suas atividades da maneira que bem entender. A única atividade social obrigatória é meia hora de aconselhamento individual e um grupo de conscientização por semana, onde são discutidos os problemas das residências.
Horários de entrada e saída também são absolutamente livres, conservando-se somente o respeito com o descanso das demais pessoas que vivem na mesma casa.

Como começar?

O interessado deve escrever ao coordenador dos programas especiais da SITA e propor o seu plano. Na solicitação deve explicar brevemente sua experiência passada: educação, profissão e a sua motivação para viver em Sociedade Trilógica. Pode incluir alguns documentos pessoais ou curriculum que julgar importantes. Após o recebimento de sua solicitação, o coordenador responderá dentro de duas semanas dando informações sobre como iniciar um projeto semelhante, ou como ingressar num já existente.

É melhor viver numa sociedade trilógica?

Uma pesquisa que foi efetuada entre os moradores das residências trilógicas revelou que, apesar de dificuldades transitórias de espaço e de conforto material, 93,56 por cento preferem viver numa sociedade trilógica, contra 3,22 por cento que preferiam viver sozinhos e 3,22 com sua família em estilo tradicional (devido ao maior conforto material que esses possuíam em suas casas). 87,10 por cento manifestaram desejo de trazer suas famílias para viver numa sociedade de tipo trilógica.

De acordo com esta pesquisa, as quatro características menos favoráveis da vida em família tradicional são os “pactos” (omissão em dizer a verdade um ao outro e elogiar demais), egoísmo, censura e brigas entre os membros da família. As cinco características mais favoráveis das Sociedades Trilógicas são amizade, ajuda mútua, intercâmbio cultural, honestidade e economia. Apesar de todos os problemas que estas sociedades experimentais enfrentam, os resultados são muito favoráveis e tendem a crescer em número de pessoas e qualidade de vida.

As maiores dificuldades foram iniciais, no que concerne a instalações e condições econômicas para propiciar o conforto ideal desejado por qualquer ser humano. À medida que toda a estrutura econômico-social foi sendo modificada, a tendência foi de uma rápida melhoria na qualidade de vida de todos. Ainda assim, o padrão de vida dessas sociedades é muito superior à grande maioria da população em geral. Esses resultados são encorajantes, pois toda a grande sociedade poderá ser modificada em pouco tempo suavemente, sem necessidade de nenhuma medida drástica, a não ser no espírito da vida social.

Impressões de membros da sociedade

1. J.M., 27 anos, americano, engenheiro de telecomunicações: “O ambiente da Sociedade Trilógica é bom para aprender como crescer pessoalmente e, no meu caso, especialmente, ajudou-me a abandonar a maconha e cocaína. É divertido, nunca é chato, e sempre cheio de surpresas.”

2. A.A.M., 30 anos, brasileiro, médico: “No sentido pessoal e profissional a Sociedade Trilógica dá muita força. Nos pressiona ao desenvolvimento, ao trabalho e à pesquisa na própria área (coisa que eu tinha perdido a vontade de fazer desde que saí da faculdade). Aprendi a tratar melhor as pessoas e aos pacientes, fiquei mais maleável, afetivo, além de estar aprendendo a me conhecer melhor. Aqui você adquire condições de liderar um grupo, uma empresa, uma sociedade.”

3. P.S.S., 39 anos, finlandês, consultor empresarial: “Viver nas casas trilógicas é mais prático, você não precisa sair de casa para encontrar seus amigos; há uma porção deles ao seu redor. Eu gosto de viver entre pessoas de diferentes nacionalidades e culturas de outros países. A Sociedade Trilógica ajuda-me a refrear minhas atitudes destrutivas e tornar-me mais consciente de mim mesmo, especialmente de minhas más intenções”.

4. N.G.T., 52 anos, brasileira, vendedora: “Este é o método mais econômico de viver em Nova Iorque. Nós aprendemos a considerar mais ao próximo, a nos adaptarmos a novas situações. Agora será fácil viver em qualquer lugar do mundo. Aqui não há solidão, há sempre um amigo para compartilharmos nossos sentimentos e pensamentos.”

5. M.R.B., 31 anos, brasileira, advogada: “A vantagem das casas trilógicas é que você tem sempre com quem compartilhar o que está fazendo. Você sente-se como se estivesse em família, mas uma família honesta, boa, porque um fala a verdade para o outro, sem hipocrisia. Em termos de cultura há um contato com todas áreas, o que gera desenvolvimento. Em termos práticos: tarefas da casa. Se você morasse sozinho, teria que fazer tudo, ao passo que nesse tipo de casas você tem tempo para outras coisas. Em termos psicológicos: todos participando da mesma terapia, temos oportunidade de nos conhecer mais profundamente. Essa proximidade cria um clima de espiritualidade muito favorável.”

6. N.C., 29 anos, americana, assistente de direção: “A Sociedade Trilógica desestimula e acaba com o egoísmo, alimenta a generosidade e cooperação. A vida comunitária alarga e enriquece seus horizontes, já que propicia o contato com pessoas de outras raças e religiões. É uma educação. Você pode aprender sobre medicina, filosofia, ciência, Deus, cozinha, limpeza, e como ser uma pessoa mais agradável e um melhor amigo.”

7. R.D.A., 14 anos, estudante: “A Sociedade Trilógica resolveu meu problema de solidão; aqui estou cheio de amigos. Estou aprendendo a trabalhar e estudar. Aqui recebo boa orientação. Gosto desta vida organizada, sem brigas.”

 

Notas

1 Psicanalista formada por Norberto R. Keppe na SPI – Sociedade de Psicanálise Integral, Brasil. Doutora Honoris Causa. Fundadora e Diretora das Faculdades Trilógicas Keppe & Pacheco e Nossa Senhora de Todos os Povos (FATRI EAD). Especialista em Psicossociopatologia pelo Instituto de Ciência e Tecnologia Keppe & Pacheco e INPG, SP.
Escritora de 16 obras sobre Psicanálise e Medicina Psicossomática.
Fundadora da Associação Internacional STOP à Destruição do Mundo.

Extrato do livro A Libertação dos Povos – A patologia do poder, – Adendo – Primeira edição, 1987, págs. 212-225

 

 

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